Páscoa - Inspira, expira, não pira
- Rafaela Merino
- 21 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Ah, a Páscoa... Um dia tão cheio de significados. Mas o que significa, de fato? Você se lembra? Ou será que se perdeu em meio a tantas obrigações?
Um clássico ciclo de autossabotagem da sociedade consumista. E não falo apenas de dinheiro. Falo da sociedade que consome a própria autoconfiança.
Explico: Começam as decorações de Páscoa — coelhinhos, ovinhos coloridos — e nenhuma menção ao verdadeiro significado da data, a menos que você frequente igrejas ou círculos específicos. De repente, você está imerso em um mundo colorido, saboroso e caríssimo de ovos de chocolate. Eles são deliciosos. Seus filhos querem. E então, que tipo de mãe ou pai você será se não conseguir dar ao menos uma cesta de chocolates para seu filho? Mas... qual é mesmo o significado do chocolate?
Enfim, você precisa trabalhar mais para poder proporcionar "a Páscoa" ao seu filho. Trabalhar mais significa menos tempo para você, menos tempo para sua família. Mas o que vão dizer se você não fizer o mínimo? Uma cesta de chocolates.
Você se acaba trabalhando. Sucesso: seu filho tem ovos. No mesmo dia, você já está enlouquecida, porque chocolate em excesso faz mal. Deixa seu filho agitado. E você, mais cansada. Riscos de diabetes, problemas gastrointestinais, alergias e até compulsão. Meu Deus, preciso impor um limite.
Passadas as festividades, a vida segue. Agora você precisa lidar com a sua própria ansiedade. Para e come um chocolate escondida. Afinal, você merece — e seu filho já anda comendo demais.
O quê? Que egoísta, comendo chocolate escondida da criança? Qual é o seu problema? O que custa? Nossa, será que sou tão ruim assim?
Então você dá. Mas também não pode dar demais. Você não tem um mínimo de noção sobre saúde infantil?
Agora você está viciada. Seu filho também. Começam a pipocar os anúncios de nutrição, os alertas de saúde: "O consumo excessivo de doces pode ocasionar problemas de saúde, uma vez que são deficientes em nutrientes e podem causar picos de glicemia, complicações cardíacas e questões de saúde bucal, dentre outros."
Meu Deus, o que foi que eu fiz comigo e com a minha família?
Agora precisamos de nutricionista. Psicólogo. Academia. Para suprir a ansiedade. Recondicionar o corpo a comer de forma saudável.
Sim, você e seu filho devem consumir ao menos 400g de frutas, verduras e legumes por dia. Os alimentos estão uma fortuna. Você precisa trabalhar mais. Mas você também precisa de mais tempo, porque tem que comprar e preparar todos esses alimentos.
Ah, mas isso você resolve em um dia da semana — dizem os anúncios. Sim... junto com a faxina, a academia, o incentivo ao estudo das crianças, a participação ativa na vida delas, as brincadeiras...
Mas também tem que cuidar de você, mulher. Assim vai ficar encalhada a vida inteira. Precisa de academia, unhas feitas, cabelo hidratado. E se vista direito. Mais dinheiro. E não vai ficar nesse emprego para sempre, né? Você precisa se qualificar, correr atrás. Está muito acomodada. Acha que a vida é só o jantarzinho em família?
Tic-tac. Já é Páscoa de novo. E tudo começa outra vez.
É comum as pessoas se sentirem sufocadas, ansiosas, incapazes o tempo todo. É nítido que não há possibilidade alguma de cumprir todas as exigências que a sociedade nos impõe diariamente.
Não somos máquinas. Somos pessoas. Comuns. Mesmo aqueles que parecem mais "diferenciados" — eles apenas mantêm uma imagem melhor perante os outros. Estamos todos imersos no caos. Afogados. Sem saber como emergir.
Você já parou para analisar quais são os SEUS valores?
Aqui em casa, é Páscoa também. Meu filho ganhou chocolatinhos dos avós — eu não me oponho. Mas aqui, eu opto por jamais vincular datas comemorativas a quaisquer gastos financeiros obrigatórios. Quero que meu filho valorize os momentos. Eu estou aqui com ele. O pai e o mano (nosso pet), também. Esse é o valor que quero passar pra ele.
Mas esse é o meu valor. Não estou pedindo que pense igual.
Estou apenas pedindo que reflita sobre toda a carga emocional que a sociedade impõe sobre você. E que analise quais são os seus valores — e de mais ninguém.
Viva com base neles.


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