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A ilusão da erradicação da acidentalidade no trânsito




Por que cuidar da infância é essencial para a redução da acidentalidade no trânsito: entre dados, traumas e a urgência da prevenção


Em 2024, participei do Congresso Nacional de Trânsito em Gramado (RS), motivada pela minha paixão pela temática da Defesa da Vida. Durante uma das palestras, foram apresentados dados alarmantes sobre a acidentalidade no trânsito no Brasil e no mundo. Também foi discutido o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), que estabelece como meta reduzir pela metade o número de mortes até 2030 — em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Contudo, o que mais me chamou atenção foi o reforço de uma meta ainda mais ambiciosa: acidente zero. Meus olhos brilharam. Imagine o sucesso de uma sociedade onde ninguém mais perde a vida no trânsito.

Entusiasmada, decidi levantar a mão e, pela primeira vez, expor publicamente as fragilidades da minha própria história familiar. Perguntei se, além dos dados e metas, existiam planos intersetoriais voltados à base da sociedade — as crianças — para que a prevenção no trânsito fosse mais do que fiscalização e punição, e se tornasse verdadeiramente educativa, acolhedora e estruturante.

A resposta foi direta e dura: “Não. E não acredito que seja necessário.”

Naquele momento, ficou evidente que, embora bem-intencionados, muitos profissionais da área ainda não compreendem as raízes sociais, emocionais e neurobiológicas que levam tantas pessoas a se tornarem protagonistas (ou vítimas) da violência no trânsito.


A falácia da prevenção isolada: por que escolinhas de trânsito, sozinhas, não bastam


Projetos como as escolinhas de trânsito são excelentes ferramentas de educação lúdica. Eles despertam nas crianças a consciência sobre regras, sinalizações e empatia. Porém, esses programas não alcançam com a mesma efetividade crianças que crescem em lares disfuncionais, marcados por negligência, violência física ou psicológica, abuso sexual, dependência química e ausência de vínculos seguros.

Estudos em neurociência e psicologia do desenvolvimento (Felitti et al., 1998; Anda et al., 2006) mostram que experiências adversas na infância (EAI) — como abuso e negligência — têm correlação direta com o aumento de comportamentos de risco na vida adulta, incluindo uso abusivo de substâncias, tentativas de suicídio, violência e acidentes de trânsito.

É importante compreender que o uso de substâncias psicoativas altera o funcionamento do cérebro. A dopamina — neurotransmissor responsável pelo prazer e pela motivação — é ativada de forma artificial, o que compromete o julgamento, a tomada de decisão e a capacidade de antecipar consequências. Assim, o indivíduo não “escolhe” conscientemente beber e dirigir. Há uma alteração cognitiva real que prejudica seu senso de risco, antes, durante e depois do uso.

Ou seja, campanhas educativas e punições, embora necessárias, não são suficientes. Para alcançar a meta de acidentalidade zero, precisamos atuar na raiz dos problemas: na infância e nos traumas não tratados.


Punição sem prevenção é só controle de danos


A cassação da carteira de habilitação ou mesmo o encarceramento não têm o efeito de prevenção esperada quando falamos de pessoas com dependência química. O infrator não ignora a punição por rebeldia, mas por déficits executivos que decorrem do uso crônico de substâncias. A punição, nesses casos, é apenas o atestado de que falhamos na prevenção. A prisão funciona como um remendo temporário — necessário, por vezes —, mas incapaz de curar a ferida social que gerou o comportamento.

Se não cuidarmos das nossas crianças — por elas mesmas, em primeiro lugar —, jamais teremos uma sociedade segura. Nem mesmo os mais bem-intencionados projetos educativos ou punitivos serão eficazes. O verdadeiro caminho passa por intervenções precoces, acompanhamento psicológico e programas de apoio à resiliência infantil.


Quando o trauma dirige


Gosto de exemplos reais — com nomes alterados para preservar identidades — para ilustrar como a omissão social na infância se transforma em risco social na vida adulta.


  • Júlia é uma mulher em situação de dependência química. Relata ter sido vítima de abuso sexual na infância e negligenciada por sua família. O uso de drogas começou como tentativa de anestesiar a dor. Hoje, com a cognição comprometida, não percebe os riscos que representa. Quando questionada sobre dirigir sob efeito de substâncias, afirma: “Se eu morrer, será um peso a menos para a sociedade.” Ao falar sobre o risco de matar alguém, nega a possibilidade. Não é maldade, é lesão neurológica.


  • Pedro sofreu abuso sexual de um professor. A família ocultou o caso por vergonha. Hoje, é alcoólatra e frequentemente dirige embriagado. Diz que “dirige devagar” e acredita estar no controle. Jamais foi abordado por blitz.


  • Maurício cresceu em um ambiente violento, sofreu a violência na pele, e iniciou o uso de cocaína e psicotrópicos ainda na adolescência. Nunca deixou de dirigir. E segue repetindo o padrão.


Esses casos, até hoje, não culminaram em tragédias, mas o risco é iminente, risco que poderia ter sido evitado se essas pessoas tivessem sido acolhidas na infância — ou tivessem tido acesso a tratamento adequado antes que os traumas se cristalizassem.


Um caso que me marcou para sempre


Em 2012, trabalhei na operação Balada Segura, do Detran/RS. Sentada diante do computador, fui abordada por um homem visivelmente alcoolizado. Ele disse:

“Incrível isso que vocês estão fazendo. Parece bobagem eu falar isso bêbado, mas queria agradecer. Se isso existisse anos atrás, eu não teria matado minha filha em um acidente de trânsito. Eu estava bêbado. Hoje, continuo bebendo, até mais, mas nunca mais dirigi. Obrigado.”

Essa história me marcou profundamente. Até hoje me arrepia e enche os olhos de lágrimas. Mas o que quero que vocês se atentem é que mesmo depois de perder a filha por causa do álcool, ele não conseguiu abandonar o vício, pelo contrário, hoje usa mais ainda. Isso nos mostra o quão grave e enraizada pode ser uma dependência. Ao contrário do que muitos pensam, o cérebro de um dependente não rejeita o que lhe faz mal. Ele deseja mais, especialmente quando a dor emocional persiste.


Conclusão: não há trânsito seguro sem infância protegida


Se quisermos, de fato, reduzir mortes no trânsito, precisamos ir além dos radares, das multas e das campanhas. Precisamos olhar para as feridas invisíveis da infância e tratar a dor antes que ela se transforme em tragédia.

Uma política de trânsito eficaz começa no colo. Começa na escuta atenta, na escola preparada, no sistema de saúde estruturado para acolher e tratar traumas. Começa com uma sociedade que compreende que ninguém nasce pronto para viver em paz; a paz é construída com cuidado, vínculo e reparação.



Referências técnicas utilizadas:

  • Felitti, V. J., Anda, R. F., et al. (1998). Relationship of Childhood Abuse and Household Dysfunction to Many of the Leading Causes of Death in Adults. American Journal of Preventive Medicine.

  • Anda, R. F., et al. (2006). The enduring effects of abuse and related adverse experiences in childhood. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience.

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Global status report on road safety.

Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN) / Secretaria Nacional de Trânsito (SENATRAN). Pnatrans – Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito.


 
 
 

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